O valor de um diário

O ato de escrever um diário é como se por meio das palavras pudéssemos alinhavar a própria vida. É um atravessamento constante. Ao escrever, penso, reflito, mergulho em mim mesma, nas sensações, percepções. O diário me leva para longe, mesmo que o meu instante presente seja seu ponto de partida e linha de chegada. É como se eu, ao escrever, consiga ser o horizonte que amanhece, trazendo novas possibilidades todos os dias, e o meu próprio anoitecer, criando a perspectiva da espera, do descanso da ideia, da reflexão sentida e absorvida. Eu posso ser, através de cada palavra bordada no papel, o meu ontem – doído, bonito, superado ou guardado – e o amanhã sonhado, narrando e descrevendo a vida a partir do hoje. Uma espécie de encantamento, como se quem escreve sobre sua própria vida tenha a possibilidade, ou habilidade, sensibilidade, quem sabe, de deter o tempo. O bonito do diário é a construção temporal à qual ele dá forma, é a memória da minha história. Mais que os fatos narrados em cada página diária, o legado de um diário são as ideias ali eternizadas. Páginas de um tempo que descrevem o tempo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *