Escrita é rio que caça o mar

Escrever é romper. Escrever é sentir cheiro de chuva no sertão, sentir os pés flutuando mesmo pisando sobre o chão. É bonito o ato da escrita. Porque envolve tanto de quem somos. É delicado, sossegado, pensam. Confesso que quase nunca. Em geral é movimento, é tentar capturar o sopro que faz o vento. Há escrita bruta, que nasce pura, cristalina, não requer luta. E há aquela que desconcerta, exige mais, tira, embora depois devolva, a paz. Penso que escrever é caminho de solidão. Onde se escuta ecos que ficaram nas ruas por onde passamos, nos trajetos por onde inda vagueiam cada dor, alegria, retalho de emoção. Eu escrevo na primeira pessoa, mesmo quando me camuflo na terceira. É uma forma de não entregar ao outro a minha vida inteira. Quando ainda dói mexer, uso do outro para me descrever. Mas não há escapatória para quem faz da escrita voo da sua memória, pouso da própria história. Toda escrita fareja o rio que lhe leva para mar de desaguar. E disso toda artesã de palavra sabe. Escrever é percorrer até se encontrar. Para depois poder continuar e o palavrear recomeçar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *