Depois é nunca

Depois é nunca. Viver o hoje como se amanhã não fosse chegar é uma baita decisão. Meio louca é verdade, tipo de escolha que tira o chão debaixo dos pés e coloca asas em quem jamais voou. Mas é – ou deve ser – deslumbrante. Porque o fato mesmo é que a gente vive pensando no amanhã. Desde a previsão do tempo, que espiamos para guiar a semana, até o plano de previdência privada que quem pode faz, pensando num futuro glorioso. O combustível da vida é mesmo o amanhã. Mas ele pode nunca chegar. E depois ser nunca. Por isso, proponho primeiro para mim, depois para você: coragem e despudor de abrir as janelas hoje. Todas elas. E deixar o vento fazer sua parte.

Vamos ver no que dá se ele arrancar os quadros das paredes, esvoaçar nossos cabelos, sacudir as roupas esquecidas no varal e virar pelo avesso nossa saia rodada que cobre nosso corpo e esconde nossa alma. Observa que esse saculejo pode ser bem vindo numa segunda feira de verão, quando a gente ainda está presa às listas e metas que talvez jamais consiga cumprir. Proponho mais: abrir o coração e dizer verdades. Todas aquelas engasgadas e possíveis de ser ditas. Para de soluçar choros não chorados. Chora logo de uma vez, ou chora aos poucos, você escolhe, o fundamental é deixar essa agua fluir. Canta, alto, desafinado, mas canta. De bossa nova ao pagode repetido a cada esquina, canta. E depois da música, silencia um tanto para descobrir outro prazer: a escuta.

Experimenta escutar a si mesma e ao outro. A gente anda ansiosa demais, falando demais, superficial demais, profunda demais. Somos gangorras doidas, oscilando entre polos opostos o tempo todo. Queremos o autoconhecimento, mas não temos tempo de pausar. Buscamos nossa essência, mas nos pautamos pela história da moça lá do Instagram. Desejamos amores profundos, mas despejamos sobre as novas relações todas as expectativas e ideais individuais que cultivamos ao longo da caminhada. Carecemos ser mar e nos apropriarmos do barulho de nossas próprias ondas. Desfaz os nós que andou apertando quando precisou sair do poço. A corda agora pode ficar mais frouxa. Repara que bom humor enternece a alma dos oponentes. Sorria e reclame menos só por hoje.

Nesse processo de entender quem sou, já vi que o agora é bicho tinhoso, viu. O depois será sempre aquele amigo gente boa e compreensivo, tipo de cara que entende o nosso tempo, criatura relax que perdoa nossas falhas e valida nossa procrastinação. Já o agora, ah, esse aí é feito de urgências, cobranças, um tipo pilhado, relativamente incompreensivo e cheio de obstinação. Não passa a mão pela cabeça, ao contrário do depois, e justifica essa vibe afirmando querer o nosso melhor. Para crescer é preciso aprender a tomar decisões. Para viver é necessário assumir escolhas sem medo do depois. Vida é movimento contínuo.

Por isso, trata de celebrar sua coragem de decidir. A coragem de sair daquele emprego cujo chefe, incompetente, era parente do dono da empresa. Ufa, que livramento, hein. Você conseguiu. E agora? Faz o que com essa coragem? E esse vazio? Ocupa com o agora e não deixa para começar nada novo no depois. Começa agora, ainda que imperfeito, começa. O movimento de fazer acontecer leva a gente aonde precisamos estar. Crer nisso e constatar sua veracidade é absolutamente maravilhoso. Arranca das caixas do maleiro aquele vestido de festa e veste. Hoje, em plena segunda, veste. E vai à luta. Bonita com roupa de festa, porque assim é. Sinta-se merecedora da bonança que se aproxima. Você tem feito por onde. O encantado guia os passos de quem se reinventa, de gente que foge do bafo quente da hipocrisia.

A vida fica muito chata se não saímos da linha reta que nos enfiam logo no jardim de infância. Andar em fila, com a mãozinha no ombro do companheiro da frente pode ser poético em fotografia, mas é bem limitante. Eu quero caminhar ao lado dos bons, daqueles que se permitem desatinos e desvios. Quero gente de saia florida que baila com o vento, gente que beija a namorada no meio da rua sem pudor. Desejo junto a mim gente sem sobrenome ou títulos. Tédio esse povo que abre portas com a chave da elite. Anseio feira com cheiro de fruta doce, batom vermelho, café bem quente. Amiga que topa asseio de metrô, banho de mar na terça feira e um drink no almoço de quinta. Chapéu mesmo sem sol, flores coloridas dentro de casa e aroma de lavanda nos lençóis. Faz da vida palco onde a estrela é tu.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *